sexta-feira, 14 de novembro de 2014

'Dispositivos móveis podem revolucionar a educação'

15/08/2011 - 12:37

Entrevista: Christopher Dede

'Dispositivos móveis podem revolucionar a educação'

Tablets e smartphones podem, pela primeira vez, integrar mundos dentro e fora da escola, diz professor da Faculdade de Educação da Universidade Harvard

Nathalia Goulart
Alunos do Colégio Visconde de Porto Seguro utilizando o iPad
Alunos do Colégio Visconde de Porto Seguro utilizam o iPad na sala de aula (Breno Rotatori/VEJA)
"É preciso, em primeiro lugar, ter um propósito educacional e só depois escolher que tecnologia melhor se adequa a esse plano"
O retorno às aulas em ao menos duas escolas paulistanas é promissor. O motivo: essas instituições passarão a adotar, de forma sistemática e programada, otablet em sala de aula. Para Christopher Dede, professor e pesquisador da Faculdade de Educação da Universidade Harvard, a ferramenta é promissora. "Graças a dispositivos como tablets e smartphones, é possível, pela primeira vez, unir de maneira tão integrada o mundo dentro e fora da escola", diz o especialista. Dede, no entanto, faz ressalvas. "Os educadores pensam em tecnologia como mágica e acreditam que apenas usando o computador ou a internet coisas boas vão acontecer. Na educação as coisas não funcionam dessa forma", salienta. Ao adotar novos aparatos, as escolas devem estar munidas de um projeto pedagógico consistente, ou os aparelhos perdem sentido. Fazer dessas tecnologias ferramentas pedagógicas é, portanto, o grande desafio da escola do século XXI. Confira a seguir os principais trechos da entrevista que Dede concedeu a VEJA.
A tecnologia ainda é um desafio para a educação. Por quê? Os educadores pensam em tecnologia como mágica e acreditam que apenas usando o computador ou a internet coisas boas vão acontecer. O fogo é assim: você acende e já desfruta dos benefícios dele. Mas na educação as coisas não funcionam dessa maneira, não é possível obter resultado algum apenas sentando-se ao lado de um laptop ou tablet.  A tecnologia precisa ser pensada como um catalisador, uma ferramenta que propicia mudanças. Essas transformações, sim, são poderosas. Ou seja, se um professor usa o tablet  para aprofundar currículo, melhorar suas práticas em sala de aula e dar acesso à informação, então podemos dizer que a tecnologia foi usada de maneira efetiva e, de fato, provocou mudanças.
Arquivo pessoal
Christopher Dede, da Faculdade de Educação de Harvard
Christopher Dede, da Universidade Harvard
Podemos dizer que os professores não estão preparados para a tecnologia? Não acredito nessa hipótese. Na vida pessoal, os professores lidam com a tecnologia de forma natural: eles usam computador, celular, fazem videoconferências e, em breve, usarão o tablet. A questão é: eles sabem utilizar tudo isso em prol da educação? O que acontece é que eles ainda não sabem como inserir a educação nesse contexto digital. Eles acreditam que basta usar o celular em uma aula para que seus alunos aprendam mais.
As escolas brasileiras apenas começam a discutir o uso do tablet  na sala de aula. As instituições americanas parecem mais avançadas nesse sentido. Como senhor avalia a experiência até o momento? Nos Estados Unidos, creio que o processo se deu de forma inversa da ideal. Aqui, as escolas adquiriram iPads  sem ter em mente quais mudanças esses aparatos poderiam trazer para a prática pedagógica. Essa não é a maneira como as coisas devem acontecer. É preciso, em primeiro lugar, ter um propósito educacional e só depois escolher que tecnologia melhor se adequa  a esse plano. O problema é que esses aparelhos têm um apelo comercial muito grande. As empresas querem vender seus produtos e, para isso, dizem que podem satisfazer todas as necessidades da escola. Mas sabemos que isso não é verdade. Não existe um único aparelho capaz de fazer tudo. Nos Estados Unidos, muita gente não pensa dessa maneira, infelizmente. E só depois percebem que compraram algo que não valia tanto assim.
É possível medir o impacto da tecnologia no desempenho acadêmico dos alunos?Existem muitas evidências de que, quando a tecnologia é usada de maneira efetiva, ou seja, quando é identificado um propósito e estruturado um projeto para atingi-lo, ela pode melhorar o processo de ensino e aprendizagem. Isso porque a escola se torna mais atrativa para o aluno. Perguntar qual o efeito da tecnologia na escola é o mesmo que perguntar qual o efeito do quadro negro na sala de aula. Depende do que se escreve nele. Agora, se pesquisarmos apenas se a tecnologia tem um efeito positivo na educação, sem levar em conta em que contexto ela foi inserida, não teremos uma resposta. Quando analisamos pesquisas sobre os projetos bem realizados, que estão preocupados com as transformações que a tecnologia pode nos proporcionar, então, sim, existem muitas evidências de que a tecnologia é um ótimo investimento em termos de aprendizagem.
Alguns analistas apontam que o tablet tem poder de revolucionar a educação devido à sua portabilidade e interatividade. O senhor compartilha desse pensamento? Sim. Graças a dispositivos como tablets e smartphones, é possível, pela primeira vez, unir de maneira tão integrada o mundo dentro e fora da escola, porque os alunos terão esses aparatos sempre à mão. Então, não se trata apenas de aprender dentro da escola. O conhecimento passa a estar disponível para o aluno durante todo o dia: ele pode aprender a qualquer momento, pode tirar fotos em qualquer lugar, levá-las para a sala de aula, discuti-las com amigos, mostrá-las aos professores. É um grande passo o fato de que podemos armazenar todas esas informações em um celular ou um tablet e depois usá-las em prol da educação. Mas só sentiremos o impacto disso tudo à medida em que todos os alunos tenham acesso a esses aparelhos.
Recentemente, a Coreia do Sul anunciou que irá aposentar todos os livros escolares até 2015, fazendo do tablet uma importante ferramenta pedagógica. Como o senhor avalia essa notícia? Existem dois aspectos a serem analisados. Um deles é a migração de conteúdo impresso para o meio digital. Se este for mais barato, atualizado mais rapidamente e mais interativo, então espero ver o fenômeno da Coreia do Sul se repetir em muitos lugares do mundo. O segundo aspecto é que muitas pessoas dizem que não precisaremos mais do conteúdo dos livros impressos, porque qualquer pessoa poderá criar seu próprio conteúdo e disponibilizá-lo na internet. Em relação a esse último aspecto, sou muito mais cético.
Que conselho o senhor daria para as escolas que estão pensando em adotar o tablet na sala de aula? A coisa mais importante a se pensar é que o tablet não é a grande inovação. Ele não deve ser o foco do investimento das escolas. Eles devem se preocupar em primeiro lugar em oferecer um currículo mais atraente e práticas pedagógicas mais inovadoras. Quando isso estiver claro, será hora de pensar de que maneira elas farão isso. Repito: é preciso ter em mente um objetivo claro e só depois pensar nos meios para atingir essa meta.

Aprendizagem móvel

Dispositivos móveis ajudam no aprendizado em sala de aula

Diversidade de funções e recursos dos aparelhos podem melhorar interação entre alunos e professores
Publicado em 22/08/2013 13:30 
Última atualização às 13:34
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Dispositivos móveis ajudam no aprendizado em sala de aula
Tablets e smartphones são novas ferramentas de ensino - Foto: Reprodução

HELDER STURARI
Da Redação*
Os dispositivos móveis se tornam cada vez mais comuns no cotidiano das pessoas. A grande diversidade de funcionalidades presentes nos aparelhos, como aplicativos, jogos, livros e filmes, além da facilidade de acessar dados e informações em tempo real, faz com que o uso de smartphones e tablets fique cada vez mais atraente para uso profissional e pessoal.

Essa prática aos poucos tem ganhado espaço no setor educacional. O mobile learning, ou aprendizagem móvel, é uma forma de ensino que utiliza estes equipamentos dentro da sala de aula, aproveitando os recursos para melhorar o aprendizado e interação entre alunos e professores.

Segundo a pedagoga Alessandra Moreno Domeniquelli, para que esta prática dê certo, é necessário que alunos e professores se adaptem ao novo estilo de ensino. “O uso destes dispositivos gera mudança na sala de aula e no comportamento dos alunos e professores. O equipamento não é o mais importante, mas a forma de trabalho é que vai enriquecer o aprendizado do aluno e favorecer a tecnologia dentro da sala de aula”, explicou.

Alessandra afirma que como o uso destes aparelhos em sala de aula é comum entre os alunos para outras finalidades, os professores devem utilizá-los de maneira favorável à sua prática pedagógica, evitando que os equipamentos atrapalhem o aprendizado.  “Colocar um tablet ou smartphone em sala de aula sem uma preparação adequada não é produtivo. É preciso de um planejamento para motivar o estudante e fazer com que ele utilize o aparelho de maneira saudável, sem que isso o distraia durante as aulas”, comentou.

Esta situação é vivenciada pela estudante Nathalia Aparecida Pinheiro, de 16 anos. A jovem ganhou um tablet da prefeitura de São Caetano em junho de 2013, mas pouco adota o aparelho para fins educacionais. “Meus professores não o utilizam. Nós usamos para acessar redes sociais e trocar mensagens com amigos”, contou. A jovem afirma que os docentes utilizam apenas os netbooks da instituição durante as aulas, mas acredita que a aplicação do tablet seria um meio interessante de aprendizado. 

De acordo com a pedagoga, a preparação e interesse dos professores precisa ser adequada para que esse tipo de situação não aconteça. “Nem todo professor está acostumado a esse meio de ensino. É preciso que ele se adapte com treinamentos e utilização diária do recurso, além de interagir com outros professores para melhorar ainda mais sua capacidade”, declarou. A especialista ainda fala que é preciso dar infraestrutura aos profissionais, como apoio técnico de uma equipe especializada no assunto.

Apesar do uso da tecnologia ser cada vez mais comum no ambiente escolar, os tradicionais livros físicos não devem acabar segundo Alessandra. A especialista afirma que eles ainda serão importantes para a formação de alunos e inspiração para novas técnicas e meios de aprendizado. “Muitas editoras fazem versões de livros digitais, mas existem alunos que ainda se adaptam melhor à leitura no livro físico do que no tablet ou computador. Isso deixa o ramo dos livros tradicionais ainda com mercado e funcionalidade dentro da sala de aula”, conclui.

*Esta reportagem foi produzida por estagiários da Redação Multimídia da Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo
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terça-feira, 30 de setembro de 2014